Thursday, May 04, 2006

Do destino ao lúdico

Além de passar horas sem dormir e ter um sono conturbado por tudo que não queria lembrar. A noite foi quente e abafada, acordando em intervalos das linhas de trem, tudo á minha volta me contorcia. O silêncio mórbido que se situava fazia com que a cada minuto conseguisse ouvir meus batimentos cardíacos em uma velocidade pouco acelerada como uma marcha de um valsete sem ritmo, sem música.
Embora tivesse fechado o cortinado, laminas de uma luz vermelho-quente atravessavam a janela dando a todo aquele cenário um tom fúnebre de um jazigo. Reflexos disformes nas paredes formavam figuras hora inanimadas, hora tão vivas, que por si tinham vida própria.
Sentia calor por toda a extensão de meu corpo, o estomago ronronara, por que de fato não havia comido nada e nem havia descido para o jantar, o cansaço tomava conta de tudo. Ali deitada imaginava o que haveria acontecido com a fotografia que trazia em minha velha bolsa de couro, e por que tamanha obra lúdica do destino em fazer com que ela desaparecesse sem sentido.
-Espere um pouco e derrubei a bolsa na escadaria do hotel. AH!
Alguém á encontrou na rua, ou talvez ela tenha tomado fôlego e vida, e deva estar dançando pelas ruelas suburbanas. Bem em vista, observei tudo que havia trazido, e com certeza mais nada havia se perdido, a não ser à vontade de viver, minha juventude, e um pouco de carisma que foram carregados ao decorrer dos anos, me tornando uma pessoa amarga e sozinha.O vestido preto continuava no chão do banheiro como uma alma descarnada de seu corpo terreno, imóvel e deformado. Na cama podia vê-lo ali, do mesmo jeito que o deixei, estava com uma mancha meio brilhante de água por que havia o molhado quando tinha tomado banho algumas horas atrás. O banho sempre me revigorava, mas aquele banho não tinha feito muita diferença ao meu corpo debilitado. E minha cabeça. Continuava a dar giros descompassados em torno do disco de vinil do passado que ficava preso sempre na mesma faixa de pensamentos. Ana.

Tuesday, April 18, 2006

Floreios e Borrões do passado.

Como se por alguns segundos... Tudo parou.
O ar era pesado e escasso.
Cada centímetro de meu corpo fora arrebatado para o interior daquele cubículo quarto, estava fria como o mármore, e a estática tinha deixado meus cabelos desordenados sob meus olhos, e não consegui reunir forças para discipliná-los, de certa forma me senti indefesa, fraca.
-estou cansada.
Primeiros passos, como de minha inteira precisão, observar é a primeira etapa em tudo que faço em vida, cama de casal com sua estrura em madeira sólida e escura, cabeceira talhada com motivos surrealistas, recheada por um colchão "king" em formato original, coberta por uma colcha floral horrenda e desfiada na ponta sob travesseiros enormes, o papel de parede me fez recordar o calabouço de minha infância, dois criados mudos sem Bíblia, uma mesa redonda com duas cadeiras de madeira gasta. Tudo floreado pelas imagens destocadas à sombra da janela central, era enorme, estava semi-aberta, enquanto a cortina azul Royal também floral se debatia violentamente em rodeios disformes, um cenário fantasmagórico e solitário.
Segurava fortemente a alça de minha mala de correr, e a bolsa preta de couro velha desajeitada jogo tudo sobre a cama, e quando me viro estou de frente ao pequeno guarda-roupas de madeira escura, com entalhes que me lembravam motivos sórdidos de um caixão, olhei ligeiramente a bagagem e o velho roupeiro, decididamente não ia fazer isso agora.
Ao lado um portal simples de madeira dava acesso direto a dependência do banheiro, virei me peguei à pequena frasqueira com meus objetos usuais, acomodei encima do pequeno gabinete com pia, e lentamente como um arrepio súbito veio sobre a cabeleira escura à moldura dourada do pequeno espelho circular, hesitei em levantar-me por algum tempo, lentamente dei confiabilidade a minha curiosidade natural, vagarosamente uma mulher erguia-se pouco orgulhosa em frente ao portal da vaidade. O contorno escuro ao redor dos olhos verdes sem brilho estava borrado, a pele ao redor dos lábios parecia frouxa, o cabelo escuro tinha seu brilho azulado. Não me senti feia. Desabotoei lentamente o vestido enquanto observava carinhosamente os contornos arredondados que me faziam mulher, o corpete preto escorregou rapidamente, revelando o colo, a pele parecia apetitosa.
Como por impulso levei uma das mãos sobre o seio nu, onde me sentia exposta á uma pintura íntima, por descuido deixo de olhar me e sigo ao fundo, a cama, a boca abre lentamente e como sem voz, sem ação, sem pensar, Ela estava sobre a cama trajando apenas roupas íntimas de um vermelho mais forte que o pecado, com olhos escuros e distantes, borrados intensamente com maquiagem, seus longos cabelos negros bagunçados. Balbuciou algo inaudível, virei me violentamente em direção a cama, e para meu espanto nada além do vento e a colcha floral meio desalinhada. Queria gritar...
-Estou louca
-Estou vendo coisas
Em sinal de demência caio de joelhos, sobre o vestido preto, não sei quanto tempo fiquei ajoelhada no banheiro, mas tive medo do passado.

Monday, April 10, 2006

Posessão

Em frente ao pequeno painel de madeira talhada, o botão do elevador ainda estava apagado, antes mesmo que pudesse aperta-lo o elevador chega com um estrondo, sua fria porta metálica abre-se vagarosamente como se estivesse cansado. Antes mesmo que percebesse, com minhas medidas para entrar, não notara que o elevador não estava sozinho, trazia consigo um projeto de pessoa. Se assim podemos chamar qualquer indivíduo que não sustenta a visão; de certa forma odeio ser ignorada, e aquele homem ignorou minha presença completamente, embora nunca fosse um de meus desígnios ser o centro de atenções, passando lateralmente com o corpo para que de certa forma não se encostasse em mim, me olhou agora de forma pouco penetrante, como se fosse uma mobília peculiar, talvez um vaso de flores mortas que estivesse empatando a passagem dos hospedes do hotel. Bem talvez esteja demasiadamente preocupada com a vida das pessoas.
-isso é ridículo!
Pouco me importa porque aquele homem me olhou sem vivacidade, afinal não consigo imaginar quais seriam melhores objetivos pra homens; perguntar quando abre o bar e onde se consegue uma prostituta, qualquer outra função seria pedir demais ao intelecto restrito e apenas instintivo.
Ao soar o "Tim" irritante, como obrigado á trabalhar sem vontade o elevador se fecha, como curiosidade natural, o que chama diretamente minha atenção são os espelhos no elevador, concerteza a idéia de se ter espelhos no elevador vem das invencionices narcisistas do proprietário do hotel, não vejo grande necessidade de se observar por tanto tempo em frente ao seu reflexo, afinal, são 5 andares e nesta velocidade, conseguiria observar pontos que nunca havia visto do meu corpo. Hipnotizada, passivamente levo as mãos ao cabelo como se pudesse penteá-lo e alguma função favorável, puxo o vestido preto ligeiramente abaixo, afinal nunca havia notado que ele tinha um decote, mínimo, discreto, mas, um decote, o pesado contraste de minha pele branca com o obscuro vestido me fez vislumbrar o quanto era atípico meu comportamento. Quando voltei a si, não sabia quem era, este hotel, este elevador, me sentia diferente, quanto tempo não demonstrava curiosidades sobre meu próprio corpo, á quanto tempo não notará que no elevador tem um homem, afinal nem distinguir sexos era uma prioridade.
"Tim", Uns 5 minutos, 5 andares, abre-se o transportador e de lá sai a "medusa de vestido preto", por sorte o corredor estava vazio á primeiro plano, seguindo um padrão de decoração de hotéis de quinta, o gasto carpete vermelho era por si infinito, baixa luz, paredes claras, quadros velhos, ao meu lado esquerdo 5 portas, até virar uma próxima ala do labirinto de dependências.
-536, ...537, é aqui!
O portal de minha dependência estava arranhado e uma lasca de madeira á altura da fechadura fora quebrado, fora isso, o verniz era lustroso, com chave e chaveiro na mão, o portal 537 seria aberto, delicadamente chave e fechadura se unem como se existissem um para o outro. Sinto um tremor que parece abalar a estrutura do prédio por completo, a porta se abre com um solavanco, um ar quente passa por mim, como se algo estivesse preso naquele quarto, esperando cuidadosamente para sair, ou se alojar, além do escuro característico apenas uma fina luz vermelha ao vão da janela indica vida dentro do cubículo, enquanto me tremem os pés as memórias da infância me respondem a pergunta óbvia:
5 minutos,
5 andares,
5 portas,

25 minutos seriam marcados pelo trem da estação, de 25 em 25 minha vida iria passar, como "relógio cuco"onde as badaladas das horas exatas ficavam por minha conta, se quisesse gritar...

Tuesday, April 04, 2006

O horror, Ana e Eu

Defronte,
Estática,
Com o girar da cabeça de forma reportava: Um clima ameno, seguramente triste, sentia-se a umidade. Um brilho fora do comum destacava a calçada que se encontrava um pouco encharcada e olhando com atenção para o chão se via o que poderia ser um universo paralelo um novo universo poderia estar de cabeça para baixo. Em meus desvarios de querer ser, e estar como um pequeno tilintar do tempo, o escurecimento sugestivo, e ainda olhando fixamente meu reflexo na encharcada calçada, como num passe absoluto do acaso, Uma luz forte avermelhada dava um outro ar a minha imagem refletida, era incandescente; e como involuntariamente a curiosidade foi maior, ao levantar a visão como se suspensa ao vácuo da deserta rua, servindo como farol aos viajantes de terras distantes. Um luminoso forte que delicadamente manchava de rubro as escadarias escassas que levavam a porta daquele estabelecimento de hospedagem. Antes que retomasse meus movimentos, um ar gélido quase sem forças naturais, indicava-me a porta simples talhada em madeira antiga. Ao primeiro passo como um flash direto, as imagens de minha realidade foram alteradas, dei voz aos ecos do passado. Imediatamente o edifício estava revigorado, e ligeiramente misterioso e logo acima da esquina da Rua Menphis, duas garotinhas " em visão inocente" devidamente uniformizadas, conjunto azul-marinho, saia de pregas, meias pouco brancas á altura do joelho, colete de lã e ao lado esquerdo do peito a insígnia do Colégio católico San Brutus para meninas. Como sorriam, como se relacionavam, como se entendiam. Eu e Ana éramos as melhores amigas, após a conclusão do plano infalível de escapar dos estudos matinais obrigatórios, a cidade se tornava um pequeno parque de diversão e cada ruela uma nova aventura, adóravamos trocar a rua Menphis pela rua vazia do Horror Palace Hotel, e sem falar na constante curiosidade que tínhamos de ver a entrada dos mais exóticos hóspedes. E como ríamos das pessoas, e como sabíamos que tarde da noite o "horror" Hotel promovia festas seletas. Ana era tão linda, seu longos cabelos negros emolduravam o corpo magro e delicadamente talhado com a sutileza de um grande artísta renascentista, com 14 anos seus traços femininos eram bem definidos, seu rosto era celeste seus lábios tinham um frescor e toda a cor do pecado, e como um toque gentil e sofisticado; grandes e expressivos olhos verdes. Ana abria ligeiramente a boca quando lhe passava a pequena idéia de adentrar o horror hotel, ela fantasiava, e seus devaneios me levavam á loucura de uma noite lascívia e alucinante. Espero um dia reencontra-la. Como em uma queda de avião a turva visão retorna á minha relativa realidade e como por tais ironias do destino estou eu Julia em frente ao Horror palace Hotel. Há muito tempo não sentia sentimento algum, mas não mentiria pra mim mesma se não senti vontade encontrar Ana mais uma vez. Embora sabendo que isso nunca seria possível. A cada batida das rodinhas a velha escada um barulho irritante e como numa pequena perda de controle, perco o equilíbrio, o peso da mala me faz contrapeso, e de imediato a única intenção que tive era tentar cair da melhor forma possível. Com os olhos fechados senti uma mão grande sobre á minha e ao abri-los vejo minha mala semi-aberta ao lado do último degrau contundida. O jovem que me segurara era Eduardo, bem foi isso que li em seu crachá. Rude como sou não agradeci. Mecanicamente Eduardo pegou minha mala, fiquei sem palavras até porque estava um pouco desconcertada com o que houve. No balcão simplesmente fui fria e objetiva, como sempre trato as pessoas; embora bem no fundo via um olhar de generosidade naquele rapaz uniformizado. Enquanto respondia seu questionário imbecil de dados pessoais, observava o Hall como se voltasse a ser aquela garotinha curiosa, os carpetes vermelhos, velhos mas, com certo charme, á mobília escura de madeira maciça bem antiga creio que até com mais idade do que meu corpo cansado, lustres como eram misteriosos, logo abaixo uma pequenina sala de espera com dois sofás estampados, florais, irritantemente florais, mesinha de centro, flores plásticas em ornamento, um pouco empoeirada, e como saindo de um transe.
-Senhora, quarto 537, casal, o elevador no fim do corredor, e quer que leve as malas?
Senti certa ironia em Eduardo "quer que leve as malas?" Como se não fosse capaz de fazer isso, não lhe respondi nada, só queria ficar um pouco mais com meus pensamentos de menina e escutar a voz oscilante de Ana ao meu ouvido, maravilhada por ver o Horror Palace Hotel.

Thursday, March 30, 2006

Homenzinho, Rubilos Bertold

-Droga de vestido! tá empoerado.
Usa-se preto para não manchar, é o que popularmente se diz, mas uso preto por que me disseram que fico altiva. Disseram é um pouco de exagero ultimamente só tenho visto o mesmo sorriso amarelo de face cinza do meu advogado "Rubilos Bertold". O acho tão asqueroso, homem baixo, afinal advogados são de uma estirpe deplóravel, como dizia minha mãe verdadeiras meretrizes; atrás de fortuna fácil. Seus tic´s nervosos me irritam profundamente, aquelas piscadelas sem sentido e movimentos frenéticos quando fala, por pouco confundi como um ataque epilético. Rubilos é advogado da família há mais de 20 anos, odiava quando frequentava nossa casa, pai me pedia para o trata-lo com gracejos e educação, de certo modo não o culpo meu pai era um homem tolo e ignorante via em Rubilos a "luz do saber".
-"O DR.RUBILUS CHEGOU!"
Nossa! de forma patética aquele homem magrinho enchia-se de um olhar de imensa admiração seus olhos azuis quase se tornavam amarelos de tanta exaltação.
Logo entravam na sala principal rústica, decorada mediocremente por minha mãe, em primeira estância dois sofás estampados com figuras culiformes bejes, acima de um tapete marrom surrado e empoerado que tinha uma mancha de café que ficava cuidadosamente disfarçado embaixo do sofá da esquerda, ao centro uma mesinha baixa de madeira escura com bibelôs da êpoca da "santa ceia" de tão antiquados, o mesmo papel de parede encardido com listras verdes que tinha por toda casa, fizeram questão de nem poupar o banheiro. Uma cristaleira portuguesa cheia de porcarias inúteis de cozinha que nunca eram usadas.
-Ah! os quadros.
Quase havia me esquecido retratos antigos de familia pintados á óleo, até que gostava deles.
De certa forma era sempre a mesma coisa Rubilus entrava sentava fazia expressões ridículas com as mãos, pai olhava tudo maravilhado, e sempre assinavam alguma coisa que mal sabia o que era, e dias posteriores eles "brigavam" um pouco, porque a posição do meu pai era sempre a do "menininho que derrubou o leite". Ele julgava Rubilos seu mais íntimo amigo, outrora ele falecia por uma efisema pulmonar, Rubilus manda um cartão para a família com 3 meses de atraso contendo três magras linhas:
"Meus
sinceros
Pésares"
Em papel timbrado do escritório, nem sequer uma visita, embora os endereços de seu escitório e todos os pormenores de contato estavam quase saltando do papel em cor vermelha, no mesmo dia minha mãe se dirigia ao seu escritório as 2 da tarde, aguardava anciosa os detalhes por que sabiamos que eram apenas duas "indefesas" mulheres em casa; palavras esbaforadas todo momento pelos vizinhos. Impressiona-me com a rigidez de minha genitora, leu mecanicamente a postagem e a colocou na bolsa e só a vi bater a porta e gritar do outro lado.
-Vou ao escritório de Rubilos!
Agora me encontro aqui mais uma geração manipulada pelos caprichos de um advogado nanico e salafrário, afinal os direitos para abertura do espólio de minha mãe também estão em suas mãos.
Sim, minha mãe também faleceu. Embora isso não seja fator para o melodrama afinal foram mais de 10 ou 11 anos que não nos falamos, e pra ser sincera não cheguei á tempo de seu velório que datava da noite passada.
-Mas não tinha como! eu estava ocupada!
Não importa, não deu para vir e pronto e chega desta bobagem.
-Hum, modesto hotel. H-O-R-R-O-R P-A-L-A-C-E H-O-T-E-L
Eu não andarei mais. Aqui está ótimo, não aguento carregar esta mala com som irritante destas rodinhas, amanhã é um longo dia, papés idiotas para assinar e uma herança á receber.
-Deus! como odeio Rubilos!

Wednesday, March 29, 2006

Simplesmente Julia

-Não sei onde deixei os óculos
Revirando insistentemente minha bolsa preta de couro encardida todos à rua pensam que sou louca. Em anos acho que exatamente o que as pessoas pensam de mim. Pra ser sincera já tem muito tempo que não me observo ao espelho, ao canto do olho sei que cresce como erva daninha, uma grande e espessa mecha de cabelos bracos. Não me sinto anciã e sei que não desfruto da jovialidade, são 37 anos e pouco me importa se é o começo ou o fim de alguma coisa.Já têm alguns minutos que deixei a estação, meu corpo parece estar em frangalhos. Uma viagem insuportável. Se já não bastasse meus costumeiros problemas de locomoção. Não preciso de tanto a primeira espelunca que avistar sigo meus saltos gastos até lá.
Há muito ainda oque fazer e muito a se pensar.