Monday, April 10, 2006

Posessão

Em frente ao pequeno painel de madeira talhada, o botão do elevador ainda estava apagado, antes mesmo que pudesse aperta-lo o elevador chega com um estrondo, sua fria porta metálica abre-se vagarosamente como se estivesse cansado. Antes mesmo que percebesse, com minhas medidas para entrar, não notara que o elevador não estava sozinho, trazia consigo um projeto de pessoa. Se assim podemos chamar qualquer indivíduo que não sustenta a visão; de certa forma odeio ser ignorada, e aquele homem ignorou minha presença completamente, embora nunca fosse um de meus desígnios ser o centro de atenções, passando lateralmente com o corpo para que de certa forma não se encostasse em mim, me olhou agora de forma pouco penetrante, como se fosse uma mobília peculiar, talvez um vaso de flores mortas que estivesse empatando a passagem dos hospedes do hotel. Bem talvez esteja demasiadamente preocupada com a vida das pessoas.
-isso é ridículo!
Pouco me importa porque aquele homem me olhou sem vivacidade, afinal não consigo imaginar quais seriam melhores objetivos pra homens; perguntar quando abre o bar e onde se consegue uma prostituta, qualquer outra função seria pedir demais ao intelecto restrito e apenas instintivo.
Ao soar o "Tim" irritante, como obrigado á trabalhar sem vontade o elevador se fecha, como curiosidade natural, o que chama diretamente minha atenção são os espelhos no elevador, concerteza a idéia de se ter espelhos no elevador vem das invencionices narcisistas do proprietário do hotel, não vejo grande necessidade de se observar por tanto tempo em frente ao seu reflexo, afinal, são 5 andares e nesta velocidade, conseguiria observar pontos que nunca havia visto do meu corpo. Hipnotizada, passivamente levo as mãos ao cabelo como se pudesse penteá-lo e alguma função favorável, puxo o vestido preto ligeiramente abaixo, afinal nunca havia notado que ele tinha um decote, mínimo, discreto, mas, um decote, o pesado contraste de minha pele branca com o obscuro vestido me fez vislumbrar o quanto era atípico meu comportamento. Quando voltei a si, não sabia quem era, este hotel, este elevador, me sentia diferente, quanto tempo não demonstrava curiosidades sobre meu próprio corpo, á quanto tempo não notará que no elevador tem um homem, afinal nem distinguir sexos era uma prioridade.
"Tim", Uns 5 minutos, 5 andares, abre-se o transportador e de lá sai a "medusa de vestido preto", por sorte o corredor estava vazio á primeiro plano, seguindo um padrão de decoração de hotéis de quinta, o gasto carpete vermelho era por si infinito, baixa luz, paredes claras, quadros velhos, ao meu lado esquerdo 5 portas, até virar uma próxima ala do labirinto de dependências.
-536, ...537, é aqui!
O portal de minha dependência estava arranhado e uma lasca de madeira á altura da fechadura fora quebrado, fora isso, o verniz era lustroso, com chave e chaveiro na mão, o portal 537 seria aberto, delicadamente chave e fechadura se unem como se existissem um para o outro. Sinto um tremor que parece abalar a estrutura do prédio por completo, a porta se abre com um solavanco, um ar quente passa por mim, como se algo estivesse preso naquele quarto, esperando cuidadosamente para sair, ou se alojar, além do escuro característico apenas uma fina luz vermelha ao vão da janela indica vida dentro do cubículo, enquanto me tremem os pés as memórias da infância me respondem a pergunta óbvia:
5 minutos,
5 andares,
5 portas,

25 minutos seriam marcados pelo trem da estação, de 25 em 25 minha vida iria passar, como "relógio cuco"onde as badaladas das horas exatas ficavam por minha conta, se quisesse gritar...

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